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Rosalind Franklin: a heroína desconhecida da dupla hélice do DNA

26 de fevereiro de 2019

Como a dedicação de uma mulher à ciência teve um papel crucial na decodificação dos mistérios fundamentais sobre quem nós somos.

Em nossa série sobre a contribuição de cientistas mulheres para a saúde mundial, falaremos sobre Rosalind Franklin, que estabeleceu as bases para uma das maiores descobertas científicas dos últimos cem anos.

Nossa compreensão sobre o DNA – e especificamente a estrutura de hélice dupla da cadeia de DNA – foi um dos elementos mais importantes para a formação do nosso entendimento sobre a vida na Terra. Isso revolucionou a forma como olhamos para as plantas e animais e transformou nossa abordagem à medicina.

A estrutura do DNA foi descoberta pelos cientistas Francis Crick e James Watson que, por esse fato, ganharam o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina, em 1962. Mas a história deles muitas vezes omite as contribuições de uma terceira cientista pioneira – a química e cristalógrafa Rosalind Franklin, que morreu antes de o prêmio ser entregue, mas cujos cálculos e medições tiveram um papel essencial na descoberta.

O trabalho fundamental de Franklin estabeleceu as bases da nossa compreensão sobre quem somos, uma descoberta de profunda importância filosófica e científica e cujos ecos se ouvem ainda hoje.

Observação de cristais

Nascida em Londres, em 1920, em uma importante família judia britânica, Rosalind Franklin frequentou a St. Paul’s Girls School, uma das únicas instituições naquela época que ensinava química e física para garotas. Assim, aos 15 anos, Franklin sabia que queria ser cientista, apesar de seu pai desencorajá-la por conta das dificuldades para as mulheres seguirem tal carreira na época.

Mesmo assim, ela estudou química na Newnham College, em Cambridge.

Retrato em preto e branco de Rosalind Franklin e página de suas anotações, indicando a estrutura de dupla hélice do DNA
A descoberta de Rosalind Franklin sobre a estrutura do DNA teve um impacto profundo sobre a nossa compreensão de quem nós somos
“The Papers of Rosalind Franklin”, Churchill Archives Centre, Cambridge. (FRKN 6/1; FRKN 1/4/2)

Depois da faculdade, Franklin trabalhou em diversos funções na área de pesquisa científica, mas talvez a mais importante tenha sido em 1947, quando se tornou pesquisadora de cristalografia por raio-X em Paris. A cristalografia por raio-X é uma técnica utilizada para determinar a estrutura atômica e molecular de um cristal, ao medir os ângulos e intensidades da difração de feixes de raio-X. O método foi utilizado para estudar a estrutura de matérias orgânicas e inorgânicas, e é utilizado até hoje em https://www.research.bayer.com/en/crystals-against-cancer.aspx.

Com sua experiência em cristalografia, Franklin retornou à Inglaterra em 1951 para assumir uma bolsa de estudos na King’s College Medical Research Council, em Londres. Apesar de sua bolsa inicialmente ter como foco o estudo da difração de raio-X em proteínas, houve uma mudança de planos depois que Maurice Wilkins, diretor-assistente do laboratório de biofísica da King's, obteve uma amostra particularmente pura do DNA do timo de um bezerro. A equipe de Franklin desenvolveu estudos de cristalografia desse DNA.

Utilizando equipamentos de raio-X e uma microcâmera, Franklin e o estudante de pós-graduação Raymond Gosling fotografaram e analisaram essas amostras de DNA. Em maio de 1952, eles produziram uma foto transformadora, a qual chamaram foto 51, e que forneceu a mais clara imagem de difração de DNA e seu padrão helicoide até então.

Foi essa foto, juntamente com a análise precisa de Franklin dos dados de difração de raio-X, que inspiraram Crick e Watson a se distanciar de sua ideia inicial de uma molécula de três hélices e fazer os cálculos necessários para desenvolver o modelo de dupla hélice da cadeia de DNA que conhecemos hoje.

Imagem das anotações de Rosalind Franklin, em que ela descreve a estrutura de dupla hélice do DNA
"Arranjo em 3 cadeias envolve torção [portanto] HÉLICE!" O momento em que Franklin anotou, pela primeira vez, sua descoberta transformadora
“The Papers of Rosalind Franklin”, Churchill Archives Centre, Cambridge. (FRKN 6/1; FRKN 1/4/2)

A falta de crédito

Entretanto, os resultados das pesquisas de Franklin foram repassados a Crick e Watson sem o seu conhecimento. Wilkins havia compartilhado a "Foto 51", e as observações detalhadas de Franklin foram incluídas em um relatório informal fornecido a um colega de Crick e Watson na Universidade de Cambridge. Franklin estava, de fato, trabalhando com Gosling em um modelo de dupla hélice, mas no momento em que publicou suas descobertas, em julho de 1953, Crick e Watson já haviam surpreendido o mundo da ciência.

Em sua autobiografia, The Double Helix, Watson reconheceu ter utilizado os dados de Franklin sem a permissão dela. Mas, de sua parte, Franklin não expressou amargura sobre a questão e prontamente aceitou o modelo dos colegas. Na verdade, mais tarde se tornou amiga de Crick e de sua esposa.

Infelizmente, não foi uma amizade duradoura, pois Franklin morreu de câncer de ovário em 1958, com apenas 37 anos. Ela passou os anos finais de sua vida longe do DNA, estudando os vírus, em especial o da poliomielite. Mais tarde, Watson afirmou que, caso Franklin tivesse vivido mais, teria recebido um prêmio Nobel por suas contribuições à elaboração do DNA. Crick e Watson receberam o prêmio em 1962.

O alicerce da vida

O trabalho crucial de Franklin na descoberta da estrutura do DNA lhe garantiu a imortalidade na ciência. Sem sua paixão à pesquisa, poderíamos não ter feito os enormes avanços na ciência e medicina que testemunhamos nos últimos 50 anos.

O conhecimento sobre a estrutura do DNA não só transformou totalmente nossa compreensão sobre como nosso corpo funciona, mas está revolucionando a forma como combatemos doenças crônicas. Atualmente, podemos ver as diferenças individuais na formação genética de uma pessoa e desenvolver tratamentos adequados.

O valor da descoberta da dupla hélice e das contribuições de Franklin continuará presente por muito tempo.

PP-OTH-BRA-0176-1-06-02-2019

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