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Dos feitiços mágicos à medicina de precisão: a história da oncologia

8 de abril de 2019

O câncer continua sendo um dos nossos maiores males, e a forma como o combatemos reflete a evolução do conhecimento médico sobre a doença

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Atualmente a segunda maior causa de morte em todo o planeta, o câncer afeta mais de 32 milhões de pessoas no mundo1 e, segundo estimativas, deve crescer até 70% nos próximos 20 anos2. Seu avanço rápido e traiçoeiro no último século é o motivo pelo qual o câncer muitas vezes é considerado uma doença relativamente nova, uma consequência do nosso mundo moderno e industrializado.

Mas este não parece ser o caso: cientistas encontraram evidências de que o câncer existe há mais de um milhão de anos. Um tumor encontrado no osso do pé de um fóssil sul-africano foi datado de pelo menos 1,7 milhão de anos atrás. Como disse Siddhartha Mukherjee em seu livro "O Imperador de Todos os Males", "A civilização não causou o câncer, mas ao prolongar a duração da vida humana, a civilização o revelou."

E a forma como tratamos a doença mudou radicalmente ao longo do tempo, evoluindo junto com a nossa compreensão de como funciona o corpo humano. A história do combate ao câncer mostra como utilizamos os maiores avanços da medicina em cada época da nossa existência. E agora estamos, possivelmente, entrando na etapa mais empolgante dessa longa batalha.

Mas vamos começar pelo início.

O câncer na Antiguidade

O primeiro caso registrado de câncer foi no Egito antigo. Foi encontrado no Papiro de Edwin Smith3, o documento de medicina mais antigo conhecido pelo homem, datado de 1.600 a.C. Ele contém uma referência ao câncer de mama, descrevendo tumores com saliências esféricas no peito que apresentam uma sensação fria ao toque. Como forma de tratamento, o papiro menciona o uso de uma "vara de fogo" para queimar ou cauterizar tumores não identificados.

Foi Hipócrates (460‐360 a.C.)4, pai da medicina, quem primeiro deu nome a esses tumores. Ele usa a palavra karkinos ("caranguejo" em grego) para descrever caroços e carcinomas ulcerados e incuráveis de tumores malignos. Acredita-se que a nomenclatura seja derivada da dureza de um caroço cancerígeno combinado com as veias sanguíneas inchadas ao redor, que lembram as pernas do caranguejo.

Hipócrates acreditava que um desequilíbrio entre os quatro principais fluidos corporais (sangue, saliva e bile amarela e preta) causava doenças. Para o câncer, ele responsabilizava uma concentração excessiva de bile preta no corpo e sugeria uma combinação de dieta, descanso e exercícios para resolver esse desequilíbrio. Se isso não funcionasse, ele defendia purificação e, às vezes, cirurgia, caso o carcinoma não estivesse muito "enraizado".

A teoria da bile preta de Hipócrates passou da Grécia antiga para a Roma antiga e para os escritos daquele que talvez tenha sido seu sucessor de maior destaque, Galeno de Pérgamo (129 – 216 d.C.)5. A classificação dos tumores por Galeno e sua visão das causas do câncer influenciaram médicos por mais de 1.500 anos. Ele também usou a palavra "oncos" (grego para "massa" ou "inchaço") para descrever os tumores e, por isso, chamados o estudo e o tratamento do câncer de oncologia.

"Tumores com saliências esféricas no peito que apresentam uma sensação fria ao toque"

– Primeiro caso registrado de câncer – Papiro de Edwin Smith

Da Idade Média até a Modernidade

Após a queda do Império Romano, grande parte do aprendizado de Hipócrates e Galeno foi deixado para trás com a chegada da medicina medieval, um misto de folclore local, herbalismo e dogmas religiosos que pregavam o uso de cura pela fé e milagres no lugar de cirurgias.

Embora a bile preta ainda fosse vista como a causa principal do câncer, os tratamentos muitas vezes eram feitos com estranhas misturas, como com unguentos feitos de óleo de sapo, poções com ervas, caranguejo em pó e até língua de lobo.

Essa realidade mudou com o advento do Renascimento e a invenção da prensa de tipos móveis de Gutemberg, em 1450. As grandes obras de medicina da Grécia, Roma e Arábia poderiam ser traduzidas e distribuídas por toda a Europa. Junto com as observações e os detalhados desenhos anatômicos de Antonio Benivieni (1443–1502), Michelângelo (1475–1564) e Andreas Vesalius (1514-1564), elas ajudaram a transformar a nossa compreensão da anatomia humana e, consequentemente, nossa abordagem às cirurgias.

No começo do século 17, o "pai da cirurgia alemã", Wilhelm Fabricius6, publicava relatos detalhados de seus métodos, incluindo longas operações em cânceres. E, nos duzentos anos seguintes, essa abordagem clínica da medicina se tornou cada vez mais comum. A teoria da bile preta e os barbeiros-cirurgiões deram lugar à observação científica, aos dados clínicos e aos estudos de caso patológicos.

O século 19 foi a era de ouro da cirurgia, com a desinfecção e a esterilização tornando-se cada vez mais comuns. Em 1846, William Morton7 demonstrou com sucesso o uso de anestesia em cirurgia. Isso permitiu que cirurgiões pioneiros como William Halsted realizassem cirurgias cada vez mais radicais em casos de câncer, como as mastectomias, para impedir sua disseminação.

Ao mesmo tempo, o estudo microscópico dos tumores nos ajudou a chegar mais perto de entender as origens do câncer. Cientistas como Johannes Müller (1801–1858) e Robert Remak (1815–1865) observaram que o câncer era composto por tipos específicos de células e que a metástase ocorria devido à disseminação dessas células.

Tudo isso mudou no século 20

Em novembro de 1895, o professor de física alemão Wilhelm Röntgen descobriu o raio-X. Em poucos meses, hospitais de todo o mundo começaram a adquirir e usar o equipamento de captação de imagens para realização de diagnósticos. Eles descobriram que a radiação causada por esses raios podia de fato tratar diversas condições de pele e, na virada do século, os raios-X eram cada vez mais usados no tratamento do câncer8.

Assim, radioterapia surgia como tratamento para a doença. Mas os benefícios dessa técnica estavam sendo superados pelos efeitos colaterais, pois a própria radiação causava câncer. Nos cinquenta anos seguintes, cientistas começaram a entender a natureza da radiação, seu efeito nas células e como ela poderia ser usada com mais segurança. E ao final do século 20, avanços na tecnologia computacional e na física da radiação permitiram aos cientistas mapear com precisão o local e a forma de pequenos tumores e, assim, lançar com precisão feixes de radiação, alterando a intensidade e a dosagem para alcançar os melhores resultados. Além disso, formas mais novas de medicamentos que emitem radiação estão sendo desenvolvidas de forma que possam lançar radiação de alta energia em uma célula cancerígena e minimizar os danos nos tecidos adjacentes.

Juntamente com a cirurgia e a radioterapia, o século 20 viu outro acréscimo na batalha contra o câncer: medicamentos que combatem o câncer, conhecidos coletivamente como quimioterapia. A primeira  substância desse tipo foi a mostarda nitrogenada, mais conhecida como gás mostarda, o gás venenoso usado com efeitos devastadores na Primeira Guerra Mundial.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o exército dos Estados Unidos descobriu que um dos principais efeitos da substância sobre os soldados expostos a ela era a diminuição do número de células brancas (linfócitos)9. Enquanto procuravam medidas de proteção, eles descobriram que a mostarda nitrogenada era eficaz no tratamento do câncer dos linfonodos (linfoma), porque atacava essas células específicas.

Isso serviu como modelo para os medicamentos quimioterápicos que surgiriam logo a seguir. Era dada a largada da corrida para desenvolver outras substâncias que pudessem atingir células em seus diferentes estágios do ciclo de vida. Como as células cancerígenas tendem a formar novas células mais rapidamente do que as células normais, os medicamentos quimioterápicos são bons na contenção da disseminação do câncer. Mas como eles não conseguem diferenciar as células saudáveis das células cancerígenas podem causar  reações adversas significativas .

É por isso que, na segunda metade do século 20, os oncologistas concentraram seu trabalho na terapia adjuvante, combinando tratamentos para remover o tumor e destruir as células cancerígenas remanescentes.

Somente nos últimos cinco anos, mais de 70 novos tratamentos oncológicos foram desenvolvidos para combater as formas de câncer mais resistentes.

Um futuro de precisão

Embora a cirurgia, a radiação e a quimioterapia permaneçam sendo as principais armas contra o câncer, avanços recentes em nosso conhecimento sobre os causadores moleculares do câncer estão transformando a nossa abordagem.

Sabemos agora que o câncer é bastante variado, pois é composto por centenas de tipos10 e afeta cada paciente de um jeito diferente, muitas vezes mudando durante o avanço da doença. Em contrapartida, pesquisadores estão desenvolvendo um número crescente de tratamentos que atingem com maior precisão o tumor específico de um paciente.

Somente nos últimos cinco anos, mais de 70 novos tratamentos oncológicos11 foram desenvolvidos para combater as formas de câncer mais resistentes. Da edição do genoma à imunoterapia, o futuro do tratamento do câncer pretende encontrar uma solução especializada para cada problema individual. É um grande avanço em relação aos purgativos e poções.

PP-OTH-BRA-0177-1-06-02-2019

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