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Christiane Nüsslein-Volhard: a cientista que ajudou a decifrar o embrião

25 de fevereiro de 2019

Christiane Nüsslein-Volhard moldou nosso entendimento sobre as primeiras fases do desenvolvimento embrionário. E agora ela está apoiando a nova geração de grandes mulheres cientistas.

A Drosophila melanogaster, mais conhecida como a mosca das frutas, pode parecer uma improvável heroína na história da ciência. No entanto, esse pequeno inseto teve um papel fundamental ao nos ajudar a encontrar a resposta para perguntas inquietantes sobre o início da vida e como nos tornamos quem somos.

Embora a mosca das frutas tenha apenas quatro cromossomos, enquanto um ser humano tem 23, os genes são incrivelmente similares. Sequências de genes humanos podem ser equiparadas a genes equivalentes da mosca. Por exemplo, cerca de 75% dos genes que causam doenças hereditárias nos humanos também podem ser encontrados na drosófila.

As moscas das frutas também se reproduzem de forma rápida e abundante. Uma mosca fêmea se torna fértil aproximadamente oito horas após a eclosão (a saída de um inseto do ovo), e pode pôr cerca de 2 mil ovos em seu ciclo de vida.

Tudo isso as torna particularmente atrativas para os cientistas que estudam o desenvolvimento embrionário. No caso de Christiane Nüsslein-Volhard e Eric Wieschaus, a drosófila os ajudou a fazer a impressionante descoberta de que alguns genes específicos controlam o desenvolvimento do embrião da mosca e fazem o mesmo para outros animais.

Infográfico detalhando alguns fatos sobre o uso científico das moscas das frutas
Infográfico detalhando alguns fatos sobre o uso científico das moscas das frutas

40 mil moscas e os genes que constroem a vida

Nascida em Magdeburg, no leste da Alemanha, Christiane Nüsslein-Volhard estudou biologia na Universidade de Tübingen e se formou com PhD em bioquímica. Em 1981, ela deu início ao projeto que seria reconhecido em todo o mundo, revelando os mistérios do desenvolvimento embrionário. Em específico, ela tinha interesse nos genes que controlam o processo pelo qual o embrião se forma e se desenvolve.

Para decifrar esses mistérios, Christiane Nüsslein-Volhard e seu colega Eric Wieschaus trabalharam com moscas das frutas. Muitas delas. No total, eles criaram quase 40 mil moscas. Os dois cientistas desenvolveram um processo de triagem genética que envolveu promover mutações do genoma da mosca das frutas e ver qual das mutações afetavam o desenvolvimento embrionário.

“Acontece que os genes que identificamos nas moscas também desempenhavam um papel muito importante nos vertebrados.”

– Christiane Nüsslein-Volhard

Esse processo permitiu à dupla identificar esses genes, reduzidos ao final a 120 genes, que controlavam diretamente o desenvolvimento dos embriões da drosófila e, por extensão, de outros organismos multicelulares.

“Acontece que os genes que identificamos nas moscas também desempenhavam um papel muito importante nos vertebrados. Esse foi um avanço revolucionário que fez as pesquisas com moscas afetarem o desenvolvimento humano”, explica Nüsslein-Volhard.

A descoberta dos dois cientistas nos proporcionou um conhecimento muito mais profundo sobre a genética do desenvolvimento. E, em 1995, esse trabalho rendeu a Nüsslein-Volhard, Wieschaus e Edward B. Lewis (cujo trabalho anterior com moscas das frutas serviu de base para a pesquisa) o Prêmio Nobel em Fisiologia ou Medicina.

Christiane Nüsslein-Volhard olha em um recipiente de laboratório
Christiane-Nüsslein Volhard
momentum-photo.com/MPI für Entwicklungsbiologie Tübingen

O apoio às mulheres cientistas

Nüsslein-Volhard foi apenas a sexta mulher a ganhar o prêmio, um reflexo não somente do significado da descoberta, mas também da relativa ausência de mulheres na ciência durante um bom período do século passado.

“Quando comecei a trabalhar como cientista no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, a vida era diferente para as mulheres. Éramos uma exceção”, afirma Nüsslein-Volhard. “As pessoas não sabiam lidar conosco. Isso complicava a vida porque o fato de eu ser mulher era algo incomum.”

Felizmente, os tempos mudaram. “As pessoas não podem mais deduzir que as mulheres são exceções e em princípio não servem para trabalhar na ciência”, explica. “Em todos os campos, existem mulheres que são no mínimo tão boas quanto os homens. Não há mais dúvidas sobre isso.”

No entanto, os desafios permanecem, em especial para as mulheres que tentam equilibrar a carreira na ciência e a criação dos filhos. Diante desses desafios, Christiane fundou a Fundação CNV em 2004, que oferece bolsas para que mães no começo de suas carreiras em ciências naturais possam dar continuidade às suas pesquisas.

“A ideia da fundação veio quando eu comecei a me perguntar sobre o pequeno percentual de mulheres na ciência e como isso poderia ser melhorado. A diferença mais importante, claro, entre homens e mulheres é que as mulheres têm filhos. Quando você tem uma família, sobra menos tempo para se dedicar a uma pesquisa. É inevitável que isso requeira tempo e energia.”

As ganhadoras das bolsas são escolhidas por méritos puramente científicos. Nüsslein-Volhard explica: “Escolhemos as vencedoras com base em suas conquistas e no que elas nos dizem sobre suas pesquisas. Não é um projeto social. Foi criado para dar suporte à carreira de mulheres talentosas.”

Essa paixão pelo rigor e pela excelência científica se refletiu em toda a carreira de Nüsslein-Volhard. Desde a revolucionária descoberta sobre como nos desenvolvemos, até o apoio à nova geração de mulheres cientistas.

PP-OTH-BRA-0180-1-06-02-2019

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